Como é que cheguei a este lugar? Onde é que ficou a mulher independente que comandava a vida e os sonhos? Desde quando é que ter alguém para partilhar os desgostos e felicidades se tornou em algo tão importante? Não me reconheço…desde que te conheci. Desde que as crianças começaram a criar interesse, desde que os detalhes do que não é dito começaram a fazer mais sentido do que aquilo que é proferido, desde que me tornei tão emocional.

Acho que quis demasiado que fosses o amor da minha vida, quando tu nem a certeza tiveste de me querer na tua vida. Mentiria se dissesse que não é incompreensível, mas também me ensinaste que nem sempre vai ser perceptível ou aceitável, vou ter sempre de aprender a viver com as dúvidas. Mentiria se dissesse que não me magoaste…Como teria sido possível não ter ficado destroçada e com a alma estilhaçada quando um amigo que queria a meu lado para sempre me trata como se eu fosse alguém no mundo igual a todos os outros que respiram lá fora? Foi difícil. Mentiria se dissesse o contrário.

Confiar na vida e acreditar que ela reserva algo mais. Confiar na vida e acreditar que aquilo que desejo vai chegar, e que ao seu tempo os meus telhados deixam de ser de vidro, tornando-me novamente no tornado que leva tudo à frente, na rosa com espinhos, e no luar que não precisou de estrelas para ser o mais bonito.
Sempre pensei que fosse de pedra, que fosse um tornado que levava tudo à frente. Sempre estive enganada. Não aprendi com as maiores feridas que me causaram...e permiti que outros causassem as mesmas feridas pelas mesmas razões. Tenho o coração partido. E acho que cicatrizando-o, não aguento parti-lo novamente....

Uma dor já cicatrizada...

Sempre defendi que a dor é a culpada da aprendizagem e do crescimento. Sempre me defendi melhor quando tudo desaba aos meus pés da pior maneira possível, do que quando o chão começa a ceder e o tentam apaziguar. A melhor maneira de me perderem sempre foi quebrarem-me em pedaços, e o curioso, é que isso também foi sempre a melhor maneira de me ganharem. E infelizmente, tu sempre soubeste como gerir o querer que tu ficasses, por muito que houvessem sinais que me diziam que eu não te queria na minha vida. Nunca pensei que pudesse gostar tão genuinamente de ti, que me pudesse habituar a esse teu jeito tão torto de andar, a essas maneiras tão tuas que ao início eram tudo menos o meu predilecto, que era com todo o carinho que te tentava proteger e te queria como alguém em que confiaria sempre na minha vida. Não me interpretes mal, nunca te vi como aquele que eu queria ao meu lado para sempre como num conto de fadas, e é por isso que éramos amigos….Por muito que fôssemos mais que isso. Mas a verdade é que numa coisa a culpa foi apenas minha – Confiar em ti como uma criança. Uma criança que descurou todos os sinais, que quebrou todas as regras próprias, que pôs a conversa sempre como meio para aperfeiçoar pontos que não gostava, que agiu sempre da maneira que considerava a mais correcta, uma criança que sempre teve medo de te magoar. E para quê? Para nem me dizeres adeus, quando disseste adeus ao nosso Portugal? Fiquei de rastos. Pedi-te a verdade do “não ter tempo” a menos de uma semana de ires, e tudo o que me deste foi silêncio. Foi uma semana infernal…Desde a incompreensão da atitude de quem julgava um bom amigo, até à viagem para o outro lado da vida de uma amiga canídea, e essa sim, uma verdadeira amiga. No fim dessa semana, pedi-te de novo a verdade em tom de revolta pela ignorância que silenciosamente me ofereceste, e tudo o que me deste foram mentiras. Mentiras que fingi acreditar, por a guerra não merecer ser lutada. Ao olhar para “nós” só vejo lembranças. E há tantas boas…Que só me tornam mais fria, mais cautelosa com quem deixarei partilhar risos e sorrisos. E mais que isso, que me fazem questionar se quererei mesmo confiar naqueles que me rodeiam…