escritas que não costumam passar por cá:



No outro dia almoçava no café quando surgiu uma conversa sobre relações à distância. A pessoa em questão disse que não acreditava, compreendia ou conseguia estar numa relação à distância, decisão que apesar de respeitar, não estou de acordo. E lembrei-me de vir aqui transmitir os meus ideais rascas, nada encaixados na nossa sociedade atual, porque na minha opinião o geral das relações de hoje em dia são relacionados com paixão que se torna em obsessão de ter determinada pessoa quase “algemada” a nós, ou as famosas relações que chamamos de “curte”, com as quais concordo se estiverem encaixadas num conjunto de bases. É verdade que atualmente falta mais amar do que amor, mas também falta ver mais o que podemos ser com pessoa “x”, e não só o que podemos fazer com ela. Relações que as pessoas intitulam de sérias baseadas somente em beijos, contacto e sexo, para mim, é algo que tem uma nulidade enorme. Ao contrário da maioria não acredito no amor à primeira vista, e apesar de respeitar todas as opiniões, acho que é uma estupidez depois de o sujeito perceber o que é o amor. Acredito na paixão à primeira vista, e com paixão compreenda-se que falo numa atração física e numa certa química entre dois indivíduos.
  Voltando ao que dizia inicialmente, acho que já conseguiram compreender que acredito e estou de acordo com as relações à distância. E digo-vos até, que na minha opinião mais sincera, uma pessoa que não acredita nisto, ou não sabe o que é o amor verdadeiro, e sublinho a traço negro “verdadeiro”, ou fala sem experiência própria porque o falar está na moda. O amor antes de estar presente fisicamente está presente psicologicamente, como aquele traço que une os órgãos cardíacos numa linha transparente que mais ninguém vê senão eles. Não vou negar que às vezes dói não estarmos tão perto da pessoa como desejaríamos, até porque doer é pouco para a dor que se sente, mas existe algo mais forte do que o próprio sofrimento que nos magoa no fundo da alma e por vezes nos faz lacrimejar. 
   A conversa prolongou-se um pouco mais e tocaram no ponto: “não acredito que pelo menos na nossa idade uma pessoa seja feliz num relacionamento à distância, até porque não acredito que uma pessoa da nossa idade saiba amar.” Lá está, outra coisa que também não compreendo minimamente e que não vai nada de encontro às minhas filosofias rascas. Amar para mim faz parte da maturidade, maturidade essa que normalmente esperaria que o geral a ganhasse entre os catorze e os quinze anos de idade, e portanto, eu espero que uma pessoa na minha idade já saiba amar de verdade, como se falasse na eternidade. Talvez seja eu a doente no meio desta situação toda e esteja a escrever barbaridades enormes que ninguém compreende. Mas pergunto-vos, o que vos faria mais infeliz numa relação: demasiados problemas ou a falta diária da pessoa fisicamente? Acho que é errado concluir que numa relação à distância somos infelizes porque não pudemos fazer com o nosso namorado aquilo que faríamos se ele estivesse presente diariamente. Seriamos infelizes sim, se não houvesse amor para nos curar as feridas quando nos magoamos, porque que eu saiba ainda existem vários meios de comunicações para estarmos sempre presentes ou para pedirmos ajuda quando precisarmos dela a quem gosta de nós, e a quem amamos. Os números que afastam o amor um dia tornam-se nulos, um dia construem uma vida conjunta, e um dia provam à merda de sociedade em que vivemos que os sentimentos são mais valiosos que o materialismo. A distância não é um bicho-de-sete-cabeças quando nutrimos confiança na pessoa que está a “x” quilómetros de nós, quando aquilo que nos liga é forte, a distância é um obstáculo que por muito que doa nos torna mais fortes. Pode não ter resultado bem no pretérito, mas não está certo deixarmos de acreditar porque nos demos mal com isso umas quantas vezes. A vossa eternidade pode não estar a três quilómetros de vocês, pode estar a três mil, mas mesmo a três mil vai-vos tornar mais felizes do que se estivessem sem ela. Ultimamente o mundo esquece-se que enquanto a paixão nasceu e posteriormente morreu, o amor ainda conseguiu continuar à espera, ainda conseguiu continuar a amar todos os dias, ainda conseguiu batalhar contra todas as barreiras que o tentaram destroçar, e que no fim, o amor já sem distância ficou com espaço para o que vem por acréscimo nas relações: o carinho. 


Sei que é noite, mas não me arrisco a adivinhar as horas. As luzes do teu quarto encontram-se apagadas e os estores completamente abertos. São quatro. Nós estamos a meio. Com a luz proveniente da rua, que já há algum tempo se acendeu por estar tão escuro, vejo o teu órgão cardíaco pelo espelho da tua alma. Sinto-te a sorrir e beijas-me levemente. Nesse instante, sei que és o certo da minha vida. Não digo que o sejas para sempre, até porque tenho a certeza que não o seremos, que não foi feito para ser assim. Mas sei que neste preciso momento estamos só nós, e somos só nós que somos precisos. Sei que nestes ínfimos segundos que vivemos tu és o certo, e eu não vou fazer com que dê errado. Enquanto sentia os teus lábios nos meus, e o amor dos teus beijos, desviei o meu olhar rapidamente para a lua, vi o seu sorriso, e ouvi-a com uma voz rouca e ainda assim incrivelmente doce a sussurrar-me ao ouvido: “não tenhas medo dele”. E na verdade, eu não tinha medo de ti, ou medo do amanhã. Não tinha medo do que os vizinhos poderiam ver ou comentar quando o meio onde estamos é pequeno, não tinha medo de nada, porque naquele momento tu estavas ali, e continuarias ali no amanhã, a segurar-me o órgão cardíaco e com a alma de mão dada à minha. Estava segura, segura a ti. Trocámos vocábulos e eu nem dei por me levares ao colo até à cama, mas sinto agora os teus beijos no meu pescoço. E percebo que acabaste de atingir o meu ponto fraco, realmente não existe nada que me mime mais do que esses beijinhos. E sinto-te. Sinto-te como nunca te senti, tão próximo de mim, como se nem a respiração estivesse entre nós. Dá-se tudo tão rápido que às vezes nem sei bem se é por a escrita não ter vocábulos para expressarem o amor, ou se é mesmo por o tempo passar a correr por nós. No chão ficam as roupas que nos escondiam há momentos atrás, e na tua cama estamos nós, despidos da escuridão que a vida nos prega no caminho. Sinto qualquer coisa no sangue, não te sei explicar se é amor ou adrenalina, ou se serão ambos. Sinto o bombardeamento do meu órgão cardíaco, e ao mesmo tempo, sinto também o teu, acelerados e movidos a paixão, como o que nos trouxe aqui hoje. Oiço-nos no silêncio da noite. Uma vez. Outra vez. E outra vez. Como se fossem ciclos de prazer que outrora a vida nunca me soube dar….Mesmo que doutra forma. Meu amor, hoje somos tudo aquilo que quiseres. Perdi as incertezas a caminho do teu encontro. Hoje durmo a teu lado e sei que estarei para toda a eternidade ligada a ti. Mesmo quando os nossos caminhos não se cruzarem e eu estiver à minha janela e tu a cinco passos de onde nos encontramos agora. A ver a lua. Querendo voltar ao pretérito.