Sinto que a minha casa já não é mais aqui, que quando passo as flores murcham e que os pássaros deixam a sua melodia presa a ventos anteriores. Que o quente não é mais quente, e que as promessas do passado tornaram-se esperanças em vão. Tenho uma vida cheia de erros, de escolhas erradas, de caminhos trocados. A minha alma já não é a mesma, a cada dia que passa ela interpreta o mundo sempre de modos diferentes. No meio de lágrimas o meu coração aprendeu a refugiar-se, a esconder-se do mau a que a alma se prende, a fugir daquilo a que nunca mais quer voltar. Tenho medos também, apesar de o meu sorriso sempre falar o contrário. Continuo a ser humana, a ter sentimentos por muito que o vento insista em leva-los quando se encontram à flor da pele. Ai vento, se soubesses tu o quanto eu queria ter asas e voar para bem longe.
Talvez tudo acabasse se eu amanhã fosse outro ser. O céu jamais teria encanto e a lua deixaria de ter o seu próprio brilho. O arco-íris deixaria de existir e talvez desse continuidade ao meu novo ser. Tenho saudades do que fomos, mas não tanto de quem fui. Emociono-me a ver o que conseguimos alcançar em tão pouco tempo, mas para mim própria prefiro a alma com que me encontro agora. Ela é mais cruel, mas também mais verdadeira acompanhada com um toque de amor-próprio. Orgulho-me de quem fui, talvez a única verdade sobre esse mísero ser que um dia andou por aí. Eleva-me num sopro de coração, vamos dar continuidade ao que ontem construímos. Sem tempos e formas verbais, só quero continuar o que ficou sem final. Promete-me que da próxima vez que trocares um olhar comigo, empenhas-te a ver mais que o seu próprio reflexo, vê a sua base e lê nele que quero estar contigo. Não consigo e pressinto até que já não sei ser o ideal, eu tenho mais defeitos do que pensas, tenho mais asas do que aquelas que usufrui, eu contigo fico sem jeito. Paralisada no teu olhar, concentrada nos teus lábios, confusa com aqueles pensamentos que voam na minha mente, misturados com o bombardeamento que está presente no meu coração. Eu já não sei ter as primeiras atitudes. Ensina-me de novo eu peço-te. Leva-me e cuida de mim como antes, seria uma parvoíce perder-te num sopro sem coração.
"je t´aime"
Tempo, levarás tu tudo o que o presente tem de bom? Farás mal a todos aqueles que te souberam resistir e que se davam por fortes? Olho pela janela, reparo como em tão pouco tempo tudo pode mudar. Reparo nas cores novas, nos novos ventos e nas novas almas que por aqui vagueiam. Em profundos segundos reflicto sobre o meu passado e sinto falta daquilo que pensei nunca sentir. Medo, porque me procuras? Eu tenho artérias fortes e um coração que sabe gritar, é verdade. Nas profundezas das aparências encontro-me a mim própria, um alguém que nunca ninguém espera encontrar. Seja porque sei tornar os ponteiros de relógio em gaivotas, ou até porque quanto mais vão cavando a minha pele mais raízes se vão descobrindo. Tenho muito para percorrer com esta carne chamada de corpo, tenho muito para chorar com alma tão desnaturada. O meu coração grita de agonia, grita de saudade, grita de alegria. Grita porque o tempo passa, e a alma desnaturada refugia-se em si mesma porque sabe que tem mais poder do que o mundo alguma vez poderá pensar.
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