Sei que é noite,
mas não me arrisco a adivinhar as horas. As luzes do teu quarto encontram-se
apagadas e os estores completamente abertos. São quatro. Nós estamos a meio.
Com a luz proveniente da rua, que já há algum tempo se acendeu por estar tão
escuro, vejo o teu órgão cardíaco pelo espelho da tua alma. Sinto-te a sorrir e
beijas-me levemente. Nesse instante, sei que és o certo da minha vida. Não digo
que o sejas para sempre, até porque tenho a certeza que não o seremos, que não
foi feito para ser assim. Mas sei que neste preciso momento estamos só nós, e
somos só nós que somos precisos. Sei que nestes ínfimos segundos que vivemos tu
és o certo, e eu não vou fazer com que dê errado. Enquanto sentia os teus
lábios nos meus, e o amor dos teus beijos, desviei o meu olhar rapidamente para
a lua, vi o seu sorriso, e ouvi-a com uma voz rouca e ainda assim incrivelmente
doce a sussurrar-me ao ouvido: “não tenhas medo dele”. E na verdade, eu não
tinha medo de ti, ou medo do amanhã. Não tinha medo do que os vizinhos poderiam
ver ou comentar quando o meio onde estamos é pequeno, não tinha medo de nada,
porque naquele momento tu estavas ali, e continuarias ali no amanhã, a
segurar-me o órgão cardíaco e com a alma de mão dada à minha. Estava segura,
segura a ti. Trocámos vocábulos e eu nem dei por me levares ao colo até à cama,
mas sinto agora os teus beijos no meu pescoço. E percebo que acabaste de
atingir o meu ponto fraco, realmente não existe nada que me mime mais do que
esses beijinhos. E sinto-te. Sinto-te como nunca te senti, tão próximo de mim,
como se nem a respiração estivesse entre nós. Dá-se tudo tão rápido que às
vezes nem sei bem se é por a escrita não ter vocábulos para expressarem o amor,
ou se é mesmo por o tempo passar a correr por nós. No chão ficam as roupas que
nos escondiam há momentos atrás, e na tua cama estamos nós, despidos da
escuridão que a vida nos prega no caminho. Sinto qualquer coisa no sangue, não
te sei explicar se é amor ou adrenalina, ou se serão ambos. Sinto o bombardeamento
do meu órgão cardíaco, e ao mesmo tempo, sinto também o teu, acelerados e
movidos a paixão, como o que nos trouxe aqui hoje. Oiço-nos no silêncio da
noite. Uma vez. Outra vez. E outra vez. Como se fossem ciclos de prazer que
outrora a vida nunca me soube dar….Mesmo que doutra forma. Meu amor, hoje somos tudo aquilo
que quiseres. Perdi as incertezas a caminho do teu encontro. Hoje durmo a teu lado
e sei que estarei para toda a eternidade ligada a ti. Mesmo quando os nossos
caminhos não se cruzarem e eu estiver à minha janela e tu a cinco passos de
onde nos encontramos agora. A ver a lua. Querendo voltar ao pretérito.
Eu não te sei amar. De mãos geladas e coração quente. De cabeça transtornada e coração preenchido de amor. Não te consigo sentir pela manhã quando a brisa passa por mim, e à noite na presença das estrelas. Não te consigo encontrar pelo mundo fora, mas sei que estarás sempre que precise a meu lado. Porque me sentes por telepatia e me encontrarás pelo cheiro que sabes que possuo. E também não sinto amor quando os meus lábios tocam nos teus, mas sinto-me segura quando entrelaças os teus dedos nos meus dedos pequeninos de princesa. Na verdade, também me sinto princesa quando sinto que os teus vocábulos são límpidos como a água que às vezes me trazes. E quando despes o teu mundo sem pudor, quando proferes a verdade da vida, sinto-me única na tua vida. Tiras-me uma fotografia e dizes o quão bonita sou e o quanto me amas….mas eu não sinto amor. Olhas-me nos olhos durante os ínfimos segundos que permaneces à minha frente, mas as mariposas ainda não chegaram ao meu ventre, e o meu órgão cardíaco ainda não quis sair do meu corpo. Parece-me tão anormal para ser amor. Mas quando estás a meu lado sei que não estou sozinha. Espreito a minha alma, ela está serenamente a dançar, como se ainda fosse só minha, e tu nunca a conseguisses ver. E eu tento. Tento encontrar-te em mim depois de dobrares a esquina da avenida, tento encontrar o amor que me dás, mas tento sem sucesso. Vejo o meu reflexo no espelho e não te vejo. Só me vejo a mim. Pequenina. Sem amor nos olhos. Com um sorriso pequenino, sem razão aparente. E tu és tão grande. Sempre com os olhos brilhantes e um sorriso do tamanho do mundo. Já pensei que não te sinto porque tu não cabes em mim. Já pensei que tudo o que tenho para te dar não é o suficiente para ti. Mas tu nunca vais embora. Agora, acho que só não te sei amar. Pelo menos….como tu me amas a mim.
04/08
Custa-me relembrar-te. Relembrar-nos. Por entre as esquinas da vida. Ver-te partir por medo de sofrer posteriormente. Vou-me segurando aos vocábulos que ainda me vão aquecendo o coração e vou tornando vazios e frios os que ainda te escrevo. Como se todos os dias ainda me despedisse de ti. E ainda te falasse em segredo. Porque esta é uma dor incurável. Que renasce ao ver-te virar a avenida, ou do outro lado da estrada. Ao ver-te. Por ação do destino, quando não tinha destinado tal realidade ao meu caminho. O meu coração despedaçou-se ao ver-te a primeira vez assim, o hábito surgiu a seguir. E a mente começou a bloquear o resto de amor. O resto de sofrimento. O meu olhar descruzava caminho com o teu, a minha voz estava seca de tanto já ter gritado, a minha atenção noutro alguém, e o meu órgão cardíaco concentrado em fingir que não estavas lá. Passou a ser assim a minha alternativa, sorrir e rir-me com toda a expressão facial para que entendesses que estava bem. Mas eu estive sempre forte, nunca bem. O sangue corria as minhas veias. E o amor o meu corpo. Que outrora talvez tenha sido teu. Mas que hoje só já tem as tuas marcas. Para sempre. Custa viajar ao passado para nos encontrar bem, felizes, como um dia conseguimos ser. Para encontrar a tua proteção e as tuas missivas que agora me fazem chorar. Custa saber que tenho que viver com a dor. Que tenho de aprender a viver com ela como se esta não existisse. Quase como tenho de aprender a viver sem existires. Ao meu lado. Na minha vida. Como se nunca tivesses cá estado. Para não me magoar. Para não me magoar nas missivas que elas te enviam. E que nada custam relembrar…
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