Espero
sinceramente que me vejas em tudo aquilo por que passas, e que em todos esses
sítios e em todas essas pessoas deixes um pouco de mim. Espero, do fundo do meu
coração, que seja eu a memória que aquela música louca te traz, que seja eu
quem mais queres ver no final de um dia cansativo, ou até que seja eu o motivo
de correres todas as avenidas com o intuito de me encontrares. Espero, com uma energia
capaz de quebrar todas as barreiras deste e doutro mundo, que seja a minha voz
que surge na tua alma sempre que um vocábulo francês é ouvido ou um inglês é
proferido por alguém que afirma odiar essa língua. Espero enormemente que seja
do meu toque que te lembres quando reparares numas unhas tão grandes e
arranjadas como as minhas, e que nisso tudo, te lembres do que proferiste e do
que viveste a meu lado que te fez feliz. Espero, mas espero mesmo, que me
recordes com uma saudade danada de voltar a sorrir do meu lado e a viver de uma
forma que não conhecias. Espero que percebas que não importa a multidão em que estiveres, nunca vais encontrar ninguém igual a mim, e muito menos me vais encontrar a mim. Espero que percebas que eu era a única pessoa capaz de
tornar a tua vida única, e que perdeste essa oportunidade para sempre.
Onde estão as chaves que julguei nunca precisar?
As portas que nunca achámos que fechariam
impedem o abrigo que outrora foi constante. Onde residem os sonhos? A magia? A
agitação da escrita que nos acalma e nos torna noutrem? Não faço ideia.
Tornamo-nos independentes ao meio de sobrevivência, largamos o mundo em que nos
protegemos numa fracção de segundo, e nem percebemos que abandonamos a única presença
incontestável na nossa existência em todas as fases da lua. Tornamo-nos vazios.
Já nada nos diferencia daqueles que vagueiam fora das quatro paredes à chuva.
Já não riscamos singelas folhas brancas com rabiscos de todas as cores e formas
da nossa alma, e pior que isso, já não sentimos a ausência de não o fazer. Só
há preto. Só há a nossa existência. E quando procuramos por vocábulos para nos
expressarmos, todos eles fogem e só fica aquilo que restou de nós. Afinal, quem
sou eu? Quem sou eu quando não é a escrita uma rotina e vício predilecto do meu
ser? Os sentimentos dentro do meu corpo não têm cor vermelha. O tempo expira. Nunca
imaginámos mas, as portas encerram. Eu fiquei deste lado. Porém, os vocábulos
ficaram do outro. Não quero ser ninguém se não poder escrever. Os sentimentos
dentro do meu corpo não têm cor vermelha. Mas gritam. De saudade e de
esperança, procurando uma nova luz...
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