O problema é mesmo esse. Somos constantemente deixados para trás numa extrema correria, que por vezes nem sequer temos tempo para desfrutar cada sorriso. Vivemos com muita ausência, seja de tempo, seja de vocábulos, seja de amor. Tropeçamos em cada passo, nos nossos próprios pés, nos obstáculos. E caímos. Rasgamos a pele do nosso corpo por descuido, outras vezes por raiva e ódio. E às vezes não está no nosso tempo de sermos magoados, não está na nossa altura, mas nada é capaz de nos levantar do chão que se apodero do nosso sorriso e da nossa felicidade. Todos os dias são feitos de lutas contra tudo e todos, feitos de combates sempre em aberto, em que nenhum vocábulo bonito é capaz de desfazer um coração partido. Coração partido pelas partidas da vida, que nos maltratam fisicamente e psicologicamente, num espaço indefinido e numa enorme dimensão de dor. E tentamos ser fortes. Choramos por entre o silêncio da noite para tentarmos manter um sorriso amarelo durante todo o dia.  E às vezes deixamos que derramem pela nossa face vestígios da dor guardada para o próprio coração, e durante essa noite, castigamo-nos como se fossemos seres que não usufruem da possibilidade de errar e de baixar a cabeça. E aí percebemos que temos de lutar por nós. Temos de lutar pelo que o coração é incapaz. E nós vamos ter de ser o nosso próprio herói muitas vezes. E isso implica muita luta que resulta em desistir do que mais nos faz feliz…porque o que nos alegra, também nos desilude e magoa a sangue frio. O coração não cede, não estará de acordo com os outros sentidos muitas vezes, e ele nunca quer deixar ir quem amamos. Mas sempre chega a hora. Como chega a hora de deixar ficar, chega a hora de deixar partir. Somos deixados para trás, e deixamos para trás. E vai doer muito na hora de gritar com o coração a lacrimejar, de suster a respiração e ouvir o nosso próprio choro. Dói muito quando estamos de tal forma agarrados a tal sujeito, que a sua ausência se forma aos nossos olhos um abismo para o qual todos os dias pensamos e tentamos saltar. Porque não é fácil. E é impossível envolvermo-nos tanto com alguém a nível físico e não ficarmos afectados a nível emocional. E o problema é esse. É sermos inúteis. Resta-nos acreditar que viver depois da escuridão ainda é possível. Levantar o queixo bem para cima e olhar em frente. Sorrir. Tentarmos ser felizes por entre linhas do tempo, percorrendo todas as esquinas com a falta do brilho no olhar, mas com a forma desajeitada do sorriso. Não nos preocuparmos tanto com os outros, e olhar um pouco mais para o nosso próprio umbigo. Levanta lá dessa vida. Todos nós merecemos ser felizes. Nem que tenhamos de fingir tantos sorrisos para passarmos a acreditar que o somos.

Podias ter-me dito que ias sair da minha vida. A paixão é mesmo isto, nunca sabemos quando acaba ou se transforma em amor, e eu sabia que a tua paixão não iria resistir à erosão do tempo, ao frio dos dias, ao vazio da cama, ao silêncio da distância. Há um tempo para acreditar, um tempo para viver e um tempo para desistir, e nós tivemos muita sorte porque vivemos todos esses tempos no modo certo. Podias ter-me dito que querias conjugar o verbo desistir. Demorei muito tempo a aceitar que, às vezes, desistir é o mesmo que vencer, sem travar batalhas. Antigamente pensava que não, que quem desiste perde sempre, que a subtracção é a arma mais cobarde dos amantes, e o silêncio a forma mais injusta de deixar fenecer os sonhos. Mas a vida ensinou-me o contrário. Hoje sei que desistir é apenas um caminho possível, às vezes o único que os homens conhecem. Contigo aprendi que o amor é uma força misteriosa e divina. Sei que também aprendeste muito comigo, mais do que imaginas e do que agora consegues alcançar. Só o tempo te vai dar tudo o que de mim guardaste, esse tempo que é uma caixa que se abre ao contrário: de um lado estás tu, e do outro estou eu, a ver-te sem te poder tocar, a abraçar-te todas as noites antes de adormeceres e a cada manhã ao acordares. Não sei quando te voltarei a ver ou a ter notícias tuas, mas sabes uma coisa? Já não me importo, porque guardei-te no meu coração antes de partires. Numa noite perfeita entre tantas outras, liguei o meu coração ao teu com um fio invisível e troquei uma parte da tua alma com a minha, enquanto dormias. 
- Margarida Rebelo Pinto


Deixa-me escrever de coração para ti, numa escrita onde apenas tu és minha melodia, num conjunto em que apenas tu és sujeito. Recebe estes vocábulos com amor, que pela primeira vez podem ser lidos neste meu cantinho, sem medo que percam total essência pelo mundo. Recebe-os de braços abertos, beija-os levemente, e deixa-te levar pela doçura das entrelinhas. Não te esqueças que aqui, hoje, estou-te a marcar presença na saudade, com escrita da minha alma e do meu coração. Não esqueças que aqui, sou inteiramente “eu” para contigo…e só aqui estás tu escrito. Espero que seja a primeira das muitas vezes que me reservam para te escrever. Como assim espero que me saibas ler, em todas as vírgulas e em todos os pontos finais, sem nunca me perderes. A natureza tem por costume acompanhar-me aqui, em todos os meus devaneios, em todas as minhas quedas, em todos os meus aléns. Então, talvez te fosse útil neste momento, em que já deixei contigo um detalhe, se deixasse aqui marcado que parou agora de chover. No entanto, gotas que caiem do céu não afectam o calor da nossa amizade. Na verdade nada do mundo das trevas nos afecta. Não existem rostos lacrimejantes nas nossas paisagens desenhadas, nem corações a viverem de infelicidade nas nossas vidas. E tu tens um olhar brilhante para o qual dá gosto olhar, e um sorriso que dá prazer de percorrer. Alegras-me assim em dias um pouco mais desgastantes, sempre pronto para mim, e agora disponho a minha escrita para quem me assenta um sorriso. Para ti, e hoje somente para ti. E ainda de acordo com o meu motivo inicial, deixa-me dizer-te com a voz do coração que as saudades de nós, (não de ti), têm vagueado muito em mim. E antes que me interpretes mal, faço-te ler que o motivo é está distância que atormenta dois corpos. Distância física, porque o espaço entre países é demasiado longínquo, assim como o espaço que ocupas em mim. Faz pausas na tua leitura deste texto tão sem jeito para ti, e de noite comtempla-nos no céu a brilhar, que eu deixo-me permanecer no seu silêncio a contar o tempo que falta para voltares. Guarda com sentimento, estes rabiscos cheios de “nós”, e lembra-te sempre do que um dia disseste para eu marcar. Peço-te que deixes as tuas acções agirem sob os teus vocábulos, e que me livres destas linhas de amor terrivelmente maldosas à minha felicidade. Não fazemos parte do mundo desde sempre, mas seremos um mundo para a eternidade. Nunca me proíbas de te escrever, nunca quebres o meu coração. Quero-te escrever sempre letrinhas com corações e o demais lamechas…porque és tu que sem um jeito meio definido saí por entre os arbustos pronto a virar a minha vida do avesso. E ouves a melodia que com extrema sinfonia ecoa em ti? Sou eu. Sou eu sem mascarás a escrever-te de coração e sem medos. Sou eu. E por favor, não me deixes ir.