Podias ter-me dito que ias sair da minha vida. A paixão é mesmo isto, nunca sabemos quando acaba ou se transforma em amor, e eu sabia que a tua paixão não iria resistir à erosão do tempo, ao frio dos dias, ao vazio da cama, ao silêncio da distância. Há um tempo para acreditar, um tempo para viver e um tempo para desistir, e nós tivemos muita sorte porque vivemos todos esses tempos no modo certo. Podias ter-me dito que querias conjugar o verbo desistir. Demorei muito tempo a aceitar que, às vezes, desistir é o mesmo que vencer, sem travar batalhas. Antigamente pensava que não, que quem desiste perde sempre, que a subtracção é a arma mais cobarde dos amantes, e o silêncio a forma mais injusta de deixar fenecer os sonhos. Mas a vida ensinou-me o contrário. Hoje sei que desistir é apenas um caminho possível, às vezes o único que os homens conhecem. Contigo aprendi que o amor é uma força misteriosa e divina. Sei que também aprendeste muito comigo, mais do que imaginas e do que agora consegues alcançar. Só o tempo te vai dar tudo o que de mim guardaste, esse tempo que é uma caixa que se abre ao contrário: de um lado estás tu, e do outro estou eu, a ver-te sem te poder tocar, a abraçar-te todas as noites antes de adormeceres e a cada manhã ao acordares. Não sei quando te voltarei a ver ou a ter notícias tuas, mas sabes uma coisa? Já não me importo, porque guardei-te no meu coração antes de partires. Numa noite perfeita entre tantas outras, liguei o meu coração ao teu com um fio invisível e troquei uma parte da tua alma com a minha, enquanto dormias. 
- Margarida Rebelo Pinto


Deixa-me escrever de coração para ti, numa escrita onde apenas tu és minha melodia, num conjunto em que apenas tu és sujeito. Recebe estes vocábulos com amor, que pela primeira vez podem ser lidos neste meu cantinho, sem medo que percam total essência pelo mundo. Recebe-os de braços abertos, beija-os levemente, e deixa-te levar pela doçura das entrelinhas. Não te esqueças que aqui, hoje, estou-te a marcar presença na saudade, com escrita da minha alma e do meu coração. Não esqueças que aqui, sou inteiramente “eu” para contigo…e só aqui estás tu escrito. Espero que seja a primeira das muitas vezes que me reservam para te escrever. Como assim espero que me saibas ler, em todas as vírgulas e em todos os pontos finais, sem nunca me perderes. A natureza tem por costume acompanhar-me aqui, em todos os meus devaneios, em todas as minhas quedas, em todos os meus aléns. Então, talvez te fosse útil neste momento, em que já deixei contigo um detalhe, se deixasse aqui marcado que parou agora de chover. No entanto, gotas que caiem do céu não afectam o calor da nossa amizade. Na verdade nada do mundo das trevas nos afecta. Não existem rostos lacrimejantes nas nossas paisagens desenhadas, nem corações a viverem de infelicidade nas nossas vidas. E tu tens um olhar brilhante para o qual dá gosto olhar, e um sorriso que dá prazer de percorrer. Alegras-me assim em dias um pouco mais desgastantes, sempre pronto para mim, e agora disponho a minha escrita para quem me assenta um sorriso. Para ti, e hoje somente para ti. E ainda de acordo com o meu motivo inicial, deixa-me dizer-te com a voz do coração que as saudades de nós, (não de ti), têm vagueado muito em mim. E antes que me interpretes mal, faço-te ler que o motivo é está distância que atormenta dois corpos. Distância física, porque o espaço entre países é demasiado longínquo, assim como o espaço que ocupas em mim. Faz pausas na tua leitura deste texto tão sem jeito para ti, e de noite comtempla-nos no céu a brilhar, que eu deixo-me permanecer no seu silêncio a contar o tempo que falta para voltares. Guarda com sentimento, estes rabiscos cheios de “nós”, e lembra-te sempre do que um dia disseste para eu marcar. Peço-te que deixes as tuas acções agirem sob os teus vocábulos, e que me livres destas linhas de amor terrivelmente maldosas à minha felicidade. Não fazemos parte do mundo desde sempre, mas seremos um mundo para a eternidade. Nunca me proíbas de te escrever, nunca quebres o meu coração. Quero-te escrever sempre letrinhas com corações e o demais lamechas…porque és tu que sem um jeito meio definido saí por entre os arbustos pronto a virar a minha vida do avesso. E ouves a melodia que com extrema sinfonia ecoa em ti? Sou eu. Sou eu sem mascarás a escrever-te de coração e sem medos. Sou eu. E por favor, não me deixes ir.

Estou entre linhas de amor. Umas mais fortes e com traço negro, outras frágeis e traçadas ao de leve. Como o oito e o oitenta não há nenhuma que se iguale. Enquanto numas se canta de amor, noutras sussurra-se de saudade. Ambas proferem amor, só não o expressam da mesma maneira. E aí estou. Entre essas linhas de amor. Entre as cantigas de amor e entre as lágrimas de saudade, escorrego mais uma vez na falta de confiança e firmeza. Escorrego e levo-me pela indecisão da vida que fez de mim aquilo que hoje sou. Completamente destroçada, na posse de um coração com buraquinhos, tento sempre sorrir ao de leve para que meu jeito se aposente no ar. E com as asas que o amor me ofereceu tento voar até um céu que me abrigue de noites escuras…mas é em vão, porque voltei a puder pisar chão quando me coloquei entre as linhas de amor. Ou melhor, quando o destino me colocou entre elas. E desde aí, dói olhar para as estrelas e saber que nenhuma brilha por nós. E neste “nós” que escrevo, não sei bem que és tu. Não tenho a certeza se já estás entre mim, ou se tens tido um caminho muito atarefado e ainda não conseguiste cá chegar. E se ainda não és uma das minhas linhas de amor, peço-te que venhas rápido e me salves deste mundo a linhas, que tem dias que acorda a preto e sem magia. Se fores uma dessas linhas, então vem e desenha-nos, faz-me riscar tudo aquilo que me fizeste ter a certeza que já não me pertencia. Dá-me amor e dá-me a tua mão para que as nossas almas cheguem à lua. Não imaginas as saudades que tenho de quando me podia ausentar horas a fio para permanecer a dialogar com a lua. Dias em que as noites eram claras e cheias de sentimento. Dias de um pretérito não tão passado. E que me fazem ansiar por um futuro diferente do presente. Um futuro totalmente preenchido a vermelho intenso, sem falhas a preto e branco, sem linhas que entristecem a vida. Porque eu não sou sujeito de meias coisas. Ou é. Ou não é. E é por isso que isto fere. Porque linhas de amor são brincadeiras de amor incertas, que nem tudo são, nem nada são. E não é giro andar por aí a brincar ao amor, a saltar entre essas linhas com o coração pesado de dúvidas. E tenho plena consciência que me encontro entre linhas de amor. E o meu coração sabe que tal coisa dói. Só que não sei como me libertar disto. Esqueci que não se apaga caneta com borracha. E faltas “tu” ao “nós” para me ensinar a riscar quem já mais me fez feliz.