Nunca deu para ficar parada. Deixar o barco guiar-se pela maré sempre constou nos meus pesadelos. Acordei sempre sobressaltada quando me assaltavam as ideias e motivações nos sonhos que contradiziam tudo aquilo que sou e tudo aquilo por o qual luto. Gosto de deixar o difícil percorrer-me o corpo e castigar-me em adrenalina, que me faz continuar a abater qualquer obstáculo e ensinar a vida a sorrir comigo. Pegar nos remos e remar até à lua na direcção que me acalenta, mesmo que implique ferir-me em todos os sentidos e emoções, e a dor me sufocar em sangue e caminhos escuros. Não desisto à primeira. Nem à segunda. E não vou desistir em nenhuma tentativa até a eternidade. Porque desistir de mim é como deixar o meu maior inimigo assassinar-me e derrotar-me em tudo o que sou, e eu vou ser sempre mais forte que isso, carregue o que carregar comigo no meu barco. Sei que nunca será possível eliminar algo que alguma vez tenha perturbado o órgão que me dá alento, mas também sei que tenho que aprender a ultrapassar o que faz peso no meu barco e aprender a viver com isso para não correr o risco dele se afundar. Guardo comigo todas as desilusões que me despedaçaram, todos aqueles que me deixaram quando o que eu precisava era apoio incondicional, todos aqueles que habitam no meu céu e cuidam de mim, todas as feridas e todas as marcas das minhas quedas insaciáveis onde a dor nunca cessou. E continuo a remar com toda a ferocidade, já tendo aprendendo a viver com o que não deu certo, para nunca deixar que a amargura do pretérito encapele o meu barco no presente. E mesmo que o tempo me desgaste, me torne cansada e sem forças para lutar contra correntes inversas ao meu objectivo, jamais irei ceder, porque desistir é falecer e continuar a respirar. Porque o relógio continua a marcar os segundos a mais, as pessoas continuam a desfrutar de momentos que outrora não conheciam, e outras continuam a implorar por outros semelhantes aos de uma vivência passada, e parar, significa sobreviver ao momento, significa aniquilar tempo que amanhã nos vai faltar. Porque nós não temos tempo e, ou paramos dentro de nós para encontrarmos quem somos remando sempre com as respostas que temos e aprendendo com elas, ou paramos para o mundo e, em vez de tornarmos o viver sublime, afogamo-lo no barco connosco.

1 comentário:
É isso mesmo linda, sem tirar nem pôr.
Identifico-me bastante com este teu texto, adoro! <3
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